
Aviso: este texto terá um teor um tanto pessimista da humanidade como um todo e talvez algumas palavras de baixo calão. Isso nada mais é do que um reflexo do atual humor do escritor e também condiz com a própria revista, que trata das características (muitas vezes, negativas) da sociedade.
Sintam-se livres para partirem agora.
Transmetropolitan narra as aventuras (e porque não dizer, desventuras também) do jornalista neo-gonzo Spider Jerusalém, que depois de escrever dois livros que o tornaram famoso acaba sofrendo um bloqueio criativo e se exila nas montanhas durante vinte anos, torrando o dinheiro que ganhou em drogas, bebidas e tv a cabo.
Acontece que o editor exige que ele cumpra o contrato, que prevê mais dois livros (sendo um sobre política e outro a escolha de Spider).
Como Spider só consegue escrever na cidade ele vai ter que voltar pra selva de concreto que tanto odeia.
Criada por Warren Ellis (de Planetary) e Derick Robertson (Wolverine) esta obra é, mais do que um quadrinho adulto permeado de palavrões e - muita - violência, um estudo da sociedade atual (detalhe: as primeiras doze histórias, material utilizado para este texto, foram concebidas em 1997.)
O cenário é futurista (especificamente o século 25): criogenia e mesmo a eugênia estão muito evoluídas. Estamos num mundo onde animais podem falar, humanos podem fundir seus corpos com alienígenas e até mesmo transferir suas mentes para computadores, a tecnologia está no ápice (apesar de a tecnologia imaginada por Ellis e Robertson ser bem diferente - até mesmo retrô - considerando a vigente), entre outras diferenças.
Só uma coisa parece permanecer igual: a humanidade e todos os seus defeitos. E todos são ácidamente esmiuçados por Spider Jerusalém.
Com toda essa melhoria continuam as características mais podres da humanidade: fanatismo, intolerância, preconceito, consumismo desenfreado, indiferença...
...todos brilhantemente analisados por Warren Ellis, mesmo que as vezes de forma oculta ou mesmo carregada de ironia e sarcasmo.
Um claro exemplo é a história Outra Manhã Fria. Ela discorre sobre o tratamento dado aos revividos (nome dado as pessoas despertas de seu sono criogênico). Estando elas em uma época que não conhecem e muitas vezes sem familiares, são despertadas e deixadas à própria sorte em albergues, muitas vezes ficando em estado letárgico ou mesmo catatônico.
Um perfeito paralelo com a situação de muitos desabrigados que existem. Poucos se importam com eles (na verdade, quase ninguém), são tratados como mero fardo da sociedade e deixados também a própria sorte.
Outras duas histórias (O Que Spider Assiste na TV e Deus te Ama) tratam de forma bem cômica sobre outros dois aspectos negativos do mundo: o consumismo e o fanatismo, no caso o religioso.
Sobre o consumismo: claro, todos necessitam consumir coisas (roupas, comida, eletrônicos, livros), mas existem pessoas que fazem isso de uma forma tão desenfreada que me faz perguntar: "pra quê?"
Comprar tanto lixo e tanta merda muitas vezes apenas pra dizer que tem estas coisas, substituindo sentimentos e sensações por uma pilha de tralha inútil que pouco (ou nada) vai usar.
Quanto ao fanatismo religioso: hoje existem mais e mais vertentes religiosas (e na hq há muitas mais, com cultos a personalidades como Elvis, Kurt Cobain e até um culto dedicado a masturbação). A hq chega ao cúmulo de mostrar um jovem indeciso quanto a que caminho seguir enquanto uma versão distorcida de um evangélico diz que a solução é que este jovem seja perfurado no crânio por um picador de gelo. Spider intervém e esta armada a zona.
Convenhamos: desde que o mundo é mundo muitas foram as vertentes religiosas, quase todas se intitulando o verdadeiro caminho (principalmente as milhares vertentes que bebem do cristianismo).
O problema é que uma hora ou outra isso sempre gera discussão, que pode evoluir pra agressões físicas ou pior (que é exatamente o que acontece na história). Mais uma vez, pra quê?
As correntes cristãs, ao meu ver, surgiram unicamente por que se adequavam ao que muitos queriam enquanto algo em que acreditar, como antes já acreditaram em um panteão de deuses e muitos que acreditam até em culturas alienígenas. A verdade é que vai da necessidade de cada um, embora muitas vezes no final você só possa contar com um único ser na vida: você mesmo.
Voltando a Transmetropolitan: então...ele pega cada um desses valores e espezinha a todos, doa a quem doer (muitas vezes, por represália, acaba doendo nele. Literalmente).
E foi lendo essas hqs (recomendo, por sinal) e por problemas recentes (já discorridos por aqui anteriormente) que eu vejo a sociedade de forma cada vez mais pessimista.
Enquanto muitos se matam de trabalhar e pouco ganham outros pouco fazem e usufruem de muito (as vezes as custas daqueles que trabalham de sol a sol);
Enquanto muitos não tem um atendimento médico decente outros conseguem fazer operações de estética fúteis, as vezes pagas com dinheiro público;
Aplaudem a política do "panis et circenses" com os carnavais, festas do peão e outros tipos os políticos vão fazendo o povo de gato e sapato, as vezes por baixo dos panos, as vezes bem a vista.
E ninguém se importa.
Porque estão mais preocupados com quem vai ser eliminado do BBB, ou com os rumos da novela das oito, ou com o que o namorado(a) está fazendo.
Enquanto isso quem manda faz o que quer, nos controlando como bonecos (muitas vezes) e muitos ainda batem palmas pra isso.
Minha última pergunta é: até quando vai ser assim?
Se você chegou até esta linha, meu mais sincero obrigado, minhas desculpas se algo o ofendeu e minha promessa de que tentarei ser mais otimista em meus próximos textos.